Mostrando postagens com marcador Literatura Brasileira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura Brasileira. Mostrar todas as postagens

sábado, 14 de julho de 2012

Minha pilha de livros

O blog anda meio (muito!) abandonado, mas isso não quer dizer que estou paradona, sem fazer nada. Desde o início do ano estou envolvida com um vlog que mantenho no Youtube, o Minha pilha de livros. A proposta é resenhar alguns livros que eu li e dividir minhas impressões a respeito dessas obras.

O primeiro vídeo está bem tosco, iluminação péssima e eu não paro de fazer caretas (rs).


Desde esse primeiro vídeo, acho que melhorei bastante a questão das caretas (rs) mas a qualidade da imagem ainda é ruim porque utilizo minha câmera digital para gravar, e ela não é HD. Aliás, o dia em que eu começar a gravar em HD será também o dia em que terei que aprender a fazer maquiagens decentes, pois todos os defeitos ficarão visíveis!

Vou repostar aqui, aos poucos, o material que já tenho lá.

É isso!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Meu momento "Meia-noite em Paris"

Vi Meia-noite em Paris no outro dia e tive uma iluminação: eu sou o próprio Gil, personagem do Owen Wilson.

No filme, o Gil descobre um meio de chegar a Paris dos anos 1920 e se esbalda com F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Picasso e Salvador Dalí, entre outros. Daí, a mocinha que ele conhece nos anos 1920 diz que adoraria viver na Paris da Belle Époque, na virada do século XX. Quando eles finalmente chegam lá e ela conhece seus ídolos Toulouse-Lautrec e Gauguin, estes lhe informam que, infelizmente, minha filha, você não está numa boa época: bom mesmo devia ter sido viver na época da Renascença.


Woody Allen resolve interromper por aí essa viagem cada vez mais distante aos primórdios da arte, antes que alguém dissesse que arte de verdade mesmo eram as pinturas rupestres dos primeiros homens. Mas uma lição fica: a gente sempre acha que antigamente era melhor, que a cultura hoje é uma porcaria, que cena cultural efervescente mesmo fica no passado. E eu me identifiquei muito, porque é o tipo de coisa que eu penso o tempo todo.

Porque, assim como o roteirista Gil, que suspira pela Paris dos anos 1920, eu também suspiro por priscas eras, épocas longínquas em que eu não era nem rascunho. Normalmente, sempre penso que gostaria de ter vivido nos anos 1960, curtindo os Beatles assim que seus vinis saíssem do "forno" (imagina a expectativa de aguardar um novo lançamento dos Beatles!!!). Mas outra época começou a atrair a minha atenção.

Comecei a ler recentemente as Obras Reunidas do Fernando Sabino, autor a quem dedico extrema admiração. Poderia até mesmo dizer que foi o primeiro autor que conheci, o que marcou minha vida literária para sempre, tanto como leitora, quanto como escritora, enfim: vamos à história.

Estou lendo o livro "Gente", em que ele biografa seus amigos e conhecidos em textos curtos e deliciosos de se ler. E vai vendo a turma de amigos: Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende etc. Aqui, ele descreve essa roda de amigos em um bar, bebendo alegremente; acolá, o mesmo grupo, já mais pra lá do que pra cá, discutindo sobre arte, literatura. E, de repente, me peguei pensando se hoje em dia acontece a mesma coisa. Será que, neste exato momento, há uma roda de amigos, de artistas, trocando experiências, discutindo filmes, livros, músicas, quadros, enquanto produzem a própria história da arte? Será que um dia, algum jovem de 2050 vai parar, suspirar e dizer: "nossa, queria tanto ter participado dessa época! Ter convivido com o Fulano de Tal, dessa cena cultural tão efervescente!". Por que o passado sempre parece melhor? Por que a gente tem essa incapacidade de enxergar o que acontece bem debaixo de nossos narizes?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Resenha: "As meninas"

Para começar, quero deixar registrado: sou grande admiradora do estilo de Lygia Fagundes Telles. Mas devo confessar que só conhecia alguns de seus contos - que, sem medo de exagerar, estão entre os meus preferidos nesse gênero literário -, até começar a acalentar a ideia de ler também os seus romances. O primeiro que elegi foi um de seus mais aclamados trabalhos, As meninas. E esse foi o livro que li neste mês de agosto.

O livro é, na verdade, um retrato de três universitárias que moram no mesmo pensionato de freiras em São Paulo. Lorena é a menina rica, filha de família quatrocentona paulista, aristocrática e sensível. Está em um romance platônico com um homem casado, e ainda se conserva virgem. Lia, filha de baiana com alemão, é a revolucionária que luta para libertar o namorado, preso pelo regime militar. Ana Clara, bela e perturbada, tenta esquecer uma infância e adolescência de maus tratos através do álcool e das drogas, além de sustentar um triângulo amoroso entre seu traficante, Max, e o noivo rico.

São histórias ricas, bem entremeadas numa forma de discurso que jamais vi em outro livro: Lygia mescla as vozes das suas meninas, de forma que a narração em primeira pessoa se reveza entre as três amigas. Em um momento estamos lendo o que Lorena está fazendo, em discurso indireto (terceira pessoa); na frase seguinte, é a própria Lorena quem assume a narrativa da história, e assim acontece com as duas outras personagens.

No momento em que o eu-narrador é assumido por Ana Clara, aí é que o talento de Lygia se supera: ela consegue reproduzir, no papel, as (des)conexões no discurso de uma mente alterada pelos narcóticos. Sem dúvidas, é a minha voz narrativa preferida dentro do livro, pelo que tem de pungente e verdadeiro.

Outro mérito indiscutível da obra é o que representa um ato de coragem de sua autora: colocar um enfoque, durante o período mais negro da ditadura militar, sobre grupos de resistência ao regime. Sequer considerar a existência desses grupos já seria um acinte; que dirá fazer uma de suas protagonistas uma militante! E não fica apenas nisto: o ato de coragem vai além e Lygia descreve com detalhes uma sessão de tortura, que, de acordo com alguns, seria o primeiro depoimento de tortura de que se teria notícia. Lygia explica: "Como eu poderia escrever um romance morno em pleno ano de 1970?"

Apesar da singeleza do nome do livro, não se engane: ele se mostra muito mais denso do que, de início, se pode prever.

Cotação: Cinco de cinco estrelas. Obrigatório.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Resenha: Duas viagens ao Brasil

Hans Staden realmente nasceu com a bunda virada para a Lua. Eh a impressao que se tem ao ler "Duas viagens ao Brasil": apesar de capturado por uma tribo canibal, ele consegue se manter vivo e conquistar a simpatia (ou o temor, melhor dizendo), dos indios tupinambas que o aprisionaram.

Hans Staden

Hans era um rapaz alemao tipico do seculo XVI, ou seja, a cata de aventuras no Novo Mundo que se descortinava aos europeus. Foi ao Brasil duas vezes: na primeira, pela Coroa Portuguesa, e a segunda pela Espanhola. Era, portanto, um mercenario - sem a carga pejorativa que esse nome hoje encerra. Era uma ocupacao comum naquela epoca. 

Foi na segunda viagem que foi convencido a permanecer no Brasil como contratado dos portugueses que moravam no local. Ele seria o responsavel pela vigilancia da area - somente ele e alguns nativos da tribo dos tupiniquins, amigos dos portugueses e inimigos dos tupinambas. E foi durante um ataque dos tupinambas que Hans acabou cativo.

Os tupinambas tinham o habito de comer seus presos, entao Hans nao poderia esperar um fim diferente. Mas ele nao desanimou e tentou, habilmente, fazer com que os selvagens nao o matassem. Primeiro, disse que seu Deus estava muito chateado com os tupinambas, e, por isso, alguns indios da tribo que estavam doentes nao iriam se curar. Foi o que aconteceu e, a partir dai, os tupinambas passaram a confiar nas premonicoes do alemao. Isso envolvia ate que o prisioneiro conversasse com "seu Deus" para que a pesca fosse farta ou para que alguma tempestade se dissipasse. Logico que a estrategia do alemao foi inteligente, mas arriscada: se o "seu Deus" nao tivesse dado um empurraozinho, teria virado comida de indio.

Entao, a interessante historia de Hans Staden mostra um europeu com inteligencia e um pouco de sorte que talvez forneca o relato mais detalhado sobre o convivio com os indios brasileiros na epoca do descobrimento. Uma leitura otima para quem gosta de historia, mas realmente Hans Staden merecia um espaco maior no estudo da Historia do Brasil.

Cinco de cinco estrelas.

(Desculpem a falta de acento, os teclados italianos tem me deixado louca)

terça-feira, 30 de março de 2010

Resenha: Nunca houve um homem como Heleno

Antes de Edmundo pensar em nascer, e muito antes da expressão bad boy ser cunhada, o futebol brasileiro teve um jogador controverso, irreverente e, por vezes, insuportável mesmo. Todos esses adjetivos se materializavam na figura do centro-avante Heleno de Freitas, herói do Botafogo nos tempos áureos do time carioca, tema da biografia Nunca houve um homem como Heleno, do jornalista Marcos Eduardo Neves.

De gênio irascível e com complicações de saúde devido ao vício em éter e a uma sífilis diagnosticada tardiamente, Heleno não tinha papas na língua e falava tudo o que lhe vinha a cabeça. Como uma amostra de como ele era boquirroto, segue um trecho do livro que exemplifica bem seu temperamento:

O Campeonato Brasileiro de 1946 foi decidido em março de 1947, com a seleção carioca desafiando a paulista no Pacaembu. O jovem pernambucano Orlando de Azevedo Viana - que por sua categoria refinada no meio-de-campo do Fluminense foi apelidado de Orlando Pingo de Ouro -, sentindo a pressão, se mostrava tímido em excesso no primeiro tempo. No vestiário, em vez de dar força ao estreante, Heleno esbravejou com o colega de equipe:
- Você não é Pingo de Ouro! É pingo de merda!
Para os jornalistas, foi mais comedido:
- Se ele é Pingo de Ouro, eu sou as cataratas do Niágara jorrando brilhantes. 

O livro está repleto de histórias semelhantes, e não há como saber que sentimentos Heleno de Freitas nos desperta: raiva, desprezo, pena, comicidade? É um misto de tudo isso.

O fato é que a biografia é escrita de forma envolvente, uma leitura que prende a atenção. Apenas peca por se repetir em alguns momentos, mas a história incrível do biografado vale o pequeno esforço de relevar este pormenor.

Avaliação? 4,5 de cinco estrelas. Simplesmente perfeito para quem, como eu, adora a história do futebol brasileiro.

Em tempo: há rumores sobre a produção de uma adaptação cinematográfica dessa biografia, com Rodrigo Santoro como Heleno de Freitas. Torço para que isso se concretize! Seria um filme muito interessante.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Novas aquisições bibliotecárias

Ai, ai. A Siciliano tinha que perder o meu email de vez! Caso contrário, nunca mais conseguirei economizar um caraminguá que seja. Eles sempre me mandam emails com promoções imperdíveis - e eu, que sou facim, facim com esse negócio de livro, não consigo resistir, né?

A última gracinha deles foi o tal do desconto progressivo: na compra de quatro livros ou mais, levava 30% de desconto. 30%! Quem compra livro com certa regularidade sabe o que um desconto de 30% significa: vários livros saindo pelo preço que apenas um deles sairia na marcação normal.

Para o preju não ficar maior, convenci o namorado a rachar comigo essa compra: ele encomendava dois livros para ele, e eu mais dois para mim, pronto. Eis que minhas novas aquisições bibliotecárias chegaram:

As Rainhas do Rádio - símbolos da nascente indústria cultural brasileira
(Maria Luisa Rinaldi Hupfer - Senac Editorial - 232 páginas)

Sempre tive uma queda pela Era de Ouro do rádio brasileiro: como devia ser a vida sem a televisão? Como construir a imagem de um ídolo usando apenas a sua voz (e as suas fotos, que saíam nas revistas e jornais)? É um processo curioso de construção de uma celebridade, e ninguém encarnou melhor isso do que as Rainhas do Rádio.

Confesso que a compra também foi influenciada por eu ter visto, recentemente, Dalva e Herivelto, minissérie que adorei em todos os seus mínimos e ricos detalhes.

Guia politicamente incorreto da História do Brasil
(Leonardo Narloch - Leya - 304 páginas)

O título do livro me chamou a atenção: eu, que adoro História, gostaria muito de saber o que o autor desvenda como "mito" de tudo o que nos foi passado há anos sobre as origens do nosso país e sua história. Algumas amostras de desmistificações que constam na orelha do livro: "Zumbi tinha escravos"; Santos Dumont não inventou o avião"; "João Goulart favorecia empreiteiras"; "A origem da feijoada é europeia" (chocada!); "Aleijadinho é um personagem literário" (???).

Dá pra notar que o rapaz polemiza mesmo temas sensíveis à nossa História.

(Aliás, a capa a la Sargent Pepper's é uma graça!)

sábado, 12 de setembro de 2009

Flashes da Bienal

Nem bem cheguei da Bahia ontem, hoje já estava na Bienal do Livro, fuçando aquelas publicações difíceis de encontrar nas livrarias. Cheguei às 10h30 e achei que, em coisa de duas ou três horas, já estaria voltando para casa. Cá estou eu, chegando em casa às 21h... Por que ainda me iludo com essas coisas?

Não consegui me segurar e acabei comprando alguns livros. Tenho uma lista quase perpétua de livros para ler que só aumenta, e a Bienal não ajudou muito. Acabei voltando para casa com mais seis livros (um deles sendo uma coletânea!) para ler... Vou listá-los em ordem cronológica de compra:

1) "A bolsa e a vida - Economia e religião na Idade Média", Jacques Le Goff

Foi no estande da Record, que estava lotado de gente para a sessão de autógrafos do Bernard Cornwell. Enquanto os fãs esperavam ansiosos pelo autógrafo de um nada satisfeito Cornwall (estava com uma cara de cansaço...), passeei pelo estande semilotado e acabei, como sempre, parando na seção de História. Tenho um fraco por história medieval (vocês vão comprovar isso mais adiante), então gostei de cara do título desse livro. Comprei na hora.

2) "Os Cavaleiros de Cristo - Templários, teutônicos, hospitalários e outras ordens militares na Idade Média", Alain Demurger

Não disse que tinha um fraco pela Idade Média? Pois então.



3) "Cartas do Front - Relatos emocionantes da vida na guerra", Andrew Carroll

Comprei junto com o livro de cima e, meu Deus, nem sei como vou conseguir ler. Acho que só com uma caixa de lenço ao lado. O livro é todo formado por cartas enviadas por soldados a seus familiares, amadas, etc. Ele cobre desde as guerras mundiais até a guerra do Iraque. O autor ainda pesquisou o que aconteceu com cada uma dessas pessoas.

Olhando pelo lado mundano da coisa, esses dois livros foram o maior negócio que eu fiz na Bienal inteira. Eles estavam no estande já com 50% de desconto: os dois saíam à R$ 56, uma pechincha. Só que ainda pude usar o reembolso do ingresso da Bienal. Resultado? Paguei a bagatela de R$ 44 pelos dois livros.

4) "The plays of Oscar Wilde"

Pela parede envidraçada do estande da Livraria da Travessa, vi a ilha de livros da edição de pocket-books da Worsdworth Classics e não resisti: acabei entrando para garimpar alguma coisa. Achei esse tomo com todas as peças teatrais escritas pelo Wilde. Como romancista, confesso que não gostei do estilo dele, e justamente porque ele ficaria mais adequado se fosse uma peça de teatro. Então, voi-là! Quem sabe não gosto mais dele como dramaturgo?

5) "Hans Staden: Duas viagens ao Brasil"

No estande da L&PM, achei um livro com as cartas de Hans Staden, prefaciado pelo Eduardo Bueno: para uma viciada em História como eu, é como achar ouro. O estande da editora estava lo-ta-do ao limite do insuportável e, para justificar a fila imensa que eu ia pegar para comprar esse livro, resolvi levar mais um, que foi...


6) "Um bonde chamado desejo", Tennessee Williams
O livro me atraiu pela capa: a foto de um lindíssimo Marlon Brando como Kowalski. O filme eu não vi, mas achei melhor começar lendo a peça teatral. Depois suspiro por Marlon/Kowalski...

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O filho? O pai? Quem?

Muitas coisas me irritam, mas nada me irrita mais do que ver informação errada veiculada como verdadeira.

Comecei a ler o livreto Barão de Itararé - Herói de três séculos, uma breve biografia do Apparicio Torelly, o Barão de Itararé, jornalista e autor de máximas como "Mesa redonda não tem cabeceira". É um personagem curioso e quase folclórico no jornalismo brasileiro, que despertou meu interesse ao vê-lo citado na biografia do Nelson Rodrigues, O anjo pornográfico (excelente, por sinal, mas isso é assunto para um outro post).

E é justamente nessa passagem que entrelaça a vida do Nelson com a do Barão que o autor do livro que estou lendo comete pecados capitais. Eis o trecho:

Mário Rodrigues (um jornalista famoso, irmão de Nelson Rodrigues, que teve seu nome imortalizado como o nome do estádio do Maracanã, que se chama oficialmente Estádio Mário Rodrigues) fundou o jornal A manhã[...]

1) Mário Rodrigues, que fundou A manhã, era PAI do Nelson Rodrigues;

2) O nome oficial do Maracanã é Estádio Mário FILHO, este sim irmão do Nelson.

Só alguém que vive debaixo de uma pedra para errar o nome do Maracanã dessa maneira e ainda trazer uma informação totalmente errada sobre o pai e o irmão do Nelson Rodrigues! Com esse erro crasso, comprometeu para mim toda a obra, porque não conheço a biografia do Barão de Itararé e não posso saber se o que o autor escreveu é verdade ou um erro absurdo como esses daí. Eis o dilema: continuo a ler sem saber se posso confiar nas informações? Ou deixo o livro de lado? Estou inclinada à segunda possibilidade...

terça-feira, 9 de junho de 2009

A Condessa de Barral

Escuso falar de saudades, que são apenas mitigadas pelas cartas. Adeus e sempre, sempre - o seu P.

Com que olhos você quer que eu leia [suas cartas], estudando dobradamente com meu filho? [...] estou abarrotada de cartas suas!
Quem é P. e a quem ele dirige este recado apaixonado? E a quem ele está soterrando de cartas cheias de saudade?

P. é Dom Pedro II, e sua amada é a Condessa de Barral, tema de um maravilhoso livro de Mary del Priore: Condessa de Barral - A paixão do Imperador. (Mary é autora do livro O príncipe maldito, que recomendei em outra ocasião).

Não se poderia dizer que era uma mulher à frente de seu tempo (que expressãozinha batida!), mas Luísa Margarida Portugal e Barros era muito acima da média da época, de mulheres que recebiam o mínimo de educação possível só para não fazer feio em eventos sociais.

Educada na França com todo o rigor que dispensavam à educação dos homens, foi dama de companhia da Princesa Francisca, irmã de Dom Pedro II, quando esta se casou com um nobre francês. Esse foi o passaporte para que Luísa se tornasse preceptora das princesas imperiais brasileiras, Isabel e Leopoldina - e uma das mulheres mais influentes do Segundo Reinado.

Bonita, inteligente, articulada e extremamente culta, Luísa encarnava todos os ideais românticos de Pedro, casado por procuração com uma princesa austríaca feia e sem brilho algum. Durante toda a vida, Dom Pedro II procurou ser uma imagem oposta a do seu pai, mulherengo assumido que teve, conta-se, mais de 50 filhos fora do casamento. Sabe-se de poucos casos que teve, sempre discretos, mas, com Luísa, foi amor para a vida toda, mais de 30 anos juntos. E um amor que nem sempre se traduzia em manifestações carnais de afeto: era o bom e velho amor platônico, de reconhecimento de almas afins - embora, claro, acredite-se que eles chegaram mesmo às vias de fato. A troca de olhares e pisões de pé (forma de carinho comum em Portugal na época) aconteciam em frente mesmo das pupilas imperiais, com o máximo de disfarce que era possível a dois apaixonados.

Mais uma vez recomendo essa leitura!

quinta-feira, 5 de março de 2009

O príncipe maldito

Comecei a ler O príncipe maldito, de Mary del Priore, que é uma historiadora especializada em história do Brasil - mais especificamente, no Segundo Reinado. O livro conta justamente a história do final do reinado de D. Pedro II e todas as movimentações de tabuleiro para a sua sucessão.

D. Pedro II não teve filhos varões, apenas duas princesas: D. Isabel (a Redentora) e D. Leopoldina. As duas casaram quase ao mesmo tempo, mas foi Leopoldina quem teve o primeiro herdeiro - D. Pedro Augusto (o "príncipe maldito" do título), a cara do avô e seu inegável xodó.

D. Pedro Augusto, a cara do avô.

Quando D. Isabel finalmente teve seu primeiro filho, depois de mais de 10 anos de casamento, começaram as articulações políticas para que Pedro Augusto assumisse o trono brasileiro, em vez do filho da Isabel "carola" e do francês imundo (apelido "carinhoso" do Conde D'Eu). Pedro Augusto era o franco favorito da elite brasileira, enquanto D. Isabel tinha a lei de sucessão ao seu lado. D. Pedro II, homem de índole pacífica até demais, com problemas graves de saúde, assiste ao circo pegar fogo...

Adoro a forma de escrita da Mary del Priore porque ela contextualiza todo o processo, relatando fatos históricos, mas não deixa de fornecer um pedaço de cotidiano das figuras sisudas que conhecemos dos livros de História. São pessoas que amam, que choram e que sofrem desilusões como eu, você ou qualquer outro plebeu. O drama de D. Isabel para engravidar, de D. Pedro Augusto, órfão de mãe com apenas 6 anos (Leopoldina morreu de febre tifóide aos 23 anos) e afastado do pai alemão para ir morar no Brasil... são tragédias pessoais que forjaram a história do país. As cartas que Leopoldina troca com a irmã depois de casada são muito graciosas. Aqui vai um trechinho:

Minha querida Isabel

Como vai passando com seu maridinho? Eu estou em perfeita saúde assim como o meu. Eu vivo muito feliz com o meu Caro; Gusty [apelido do marido de Leopoldina] é excelente para mim. Eu faço tudo o que quero, ele quer, bem entendido, porque a vontade dele é a minha... Mon bien assorti époux — meu marido cheio de qualidades — tem feito lindas caças de pássaros... O tempo que passei sem Gusty pareceu-me compridíssimo. Adeus... saudades a D. Gaston e meus cumprimentos mais afetuosos aos outros.

Sua mana muito do coração e madrinha

Recomendo o livro com louvor.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Quantos livros você já leu na vida?

Minha irmã desenvolveu um gosto tardio pela leitura, aos 23 anos. Quando ela começou a ler com mais assiduidade, teve uma ideia: anotar em um bloquinho todos os livros que ela já leu, uma lista com todas as histórias que ela leu na vida. Ela me contou sobre esse novo hábito, riu e disse: "Impossível você fazer essa lista, hein?"

E ela tinha razão. Eu sempre gostei demais de ler, e leio muito desde os 5 anos. Como vou lembrar agora, com 27, tudo o que eu já li em todos esses 22 anos?

Mas foi um desafio que eu me propus a fazer quando Paula me indicou o Skoob, uma espécie de rede de relacionamentos em que a base é o hábito da leitura: o que você está lendo, o que já leu e o que vai ler.

Primeiro, delimitei que só colocaria livros juvenis, nada de literatura infantil: é a partir da coleção Vaga-lume em diante. Depois, decidi acrescentar os livros que li para a faculdade e obras técnicas relacionadas à minha profissão.

A conta está em 201 livros. Acho pouco. Dureza vai ser lembrar dos livros que eu pegava na biblioteca da escola... era quase um por dia.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Chega de saudade

Estou lendo Chega de Saudade - A história e as histórias da Bossa Nova, do Ruy Castro, e estou gostando bastante. O texto é divertido e flui legal.

Ainda estou no comecinho, no trecho que relata como João Gilberto veio parar no Rio de Janeiro para ser crooner de um grupo vocal, os Garotos da Lua. Eu não gosto de João Gilberto, acho a voz dele muito anasalada. Jamais poderia imaginar que ele foi um crooner (e bem-sucedido!) de um grupo vocal. Está sendo muito interessante descobrir essas coisas a respeito dele.

Tem um pedaço engraçado que fala sobre quando João Gilberto veio para o Rio integrar os Garotos da Lua, que eram regulares na Rádio Tupi e, portanto, uma oferta irrecusável para o rapaz que queria ser um cantor famoso, um novo Orlando Silva. Como o serviço não daria verba o suficiente para ele se sustentar, sua família, bem relacionada, arranjou-lhe um emprego no gabinete de um deputado federal. Mas nem como funcionário público fantasma o João Gilberto deu certo! O trecho:

A carta de recomendação de tio Walter a outro tio seu, o deputado baiano Rui Santos, casado com uma irmã de sua mãe, valera a João Gilberto um cargo remunerado como escriturário no gabinete deste, na Câmara dos Deputados do Distrito Federal, no Centro (...). Ele foi contratado, mas a carta esquecera-se de acrescentar que o novo funcionário não teria a obrigação de comparecer ao trabalho. João esquecia-se de cumprir até o dever mínimo do funcionário exemplar: pendurar o paletó no cabide, ir à vida e passar para recolhê-lo ao fim de cada expediente. Um ano depois de nomeado, quando a ausência de seu paletó no cabide começou a ficar excessivamente conspícua no Palácio Tiradentes, tiveram de demití-lo.
E uma trilha sonora apropriada para este post:

Joao Gilberto(Tom Jobim/Vinicius) - Chega de Saudade

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Lista de livros para ler

Como se a lista já não estivesse grande o bastante, eu ainda fiquei toda animadinha com o filme "Possessão" e comprei o romance que o inspirou. Agora a lista está quilométrica... (eu me odeio).

<-(Obras completas de Fernando Sabino, em três volumes)

Com o ritmo em que estou lendo "Emma", talvez em 2050 eu termine essa lista de leitura!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Esaú e Jacó

Eu tenho uma extensa lista de livros para ler - e ela só faz crescer. Mas acaba que ontem, visitando o site www.dominiopublico.gov.br, vejo as obras completas de Machado de Assis na internet, ao alcance de um download gratuito. Olhando a lista de livros, resolvi arriscar de ler os primeiros capítulos de "Esaú e Jacó". Quem disse que eu consegui ficar nos primeiros capítulos? Li o dia inteiro, com areia nos olhos por causa da claridade da tela, a luz ambiente se enfraquecendo ao meu redor enquanto a noite avançava. Só consegui largar o livro quando ele acabou, e posso dizer: que livro bom!

O curioso é que o livro é ótimo, mas nem tanto pelo enredo, que é meio vazio em si: irmãos gêmeos que não concordam em nada. Na mão de qualquer outro escritor, mal daria história para um livro, mas estamos falando de Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho. E essa foi uma de suas bruxarias: transformar uma história insossa de desavença fraternal em um romance bem escrito, bem acabado e completamente viciante.

Machado de Assis leva a narrativa onisciente para o próximo nível: ele não só sabe de tudo o que se passa, como dialoga diretamente com o leitor. Não é apenas um simples narrador fiel (ou não) da história, mas o seu guardião, e deixa isso perfeitamente claro. Ele desenvolve uma relação variada com o leitor, ora paternalista, ora amigável, ora submissa.

Uma amostra dessa relação sem cerimônias fica no capítulo 27 ("De uma reflexão intempestiva"), em que Machado interrompe a narração que vai fazendo dos desentendimentos dos gêmeos Pedro e Paulo, ainda adolescentes, para responder a perguntas que algumas leitoras já deveriam estar se fazendo àquela altura do livro:

Eis aqui entra uma reflexão da leitora: "mas se duas velhas gravuras os levam a murro e sangue, contentar-se-ão eles com a sua esposa? Não quererão a mesma e única mulher?”
(...)
Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com método. A insistência da leitora em falar de uma só mulher chega a ser impertinente. Suponha que eles deveras gostem de uma só pessoa; não parecerá que eu conto o que a leitora me lembrou, quando a verdade é que eu apenas escrevo o que sucedeu e pode ser confirmado por dezenas de testemunhas? Não, senhora minha, não pus a pena na mão, à espreita do que me vissem sugerindo. Se quer compor o livro, aqui tem a pena, aqui tem papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler somente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha; dou-lhe que boceje entre dois capítulos, mas espere o resto, tenha confiança no relator destas aventuras.
Genial.