Mostrando postagens com marcador Lembranças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lembranças. Mostrar todas as postagens

sábado, 14 de novembro de 2009

A papelaria

Acho muito engraçado viver hoje no mesmo bairro em que morei até os 10 anos de idade, porque as mudanças dos arredores do bairro sempre me saltam mais aos olhos do que se eu simplesmente tivesse vivido minha vida inteira aqui. Ruas que abrem, se alargam, casas que dão lugar a prédios de apartamentos cada vez mais altos e com mais gente. Mas nada chama mais a atenção do que o comércio de bairro, essa instituição que sempre achamos estar com os dias contados por causa do poderio dos shopping centers - isso até a gente precisar de um pão, uma caixa de fósforo e descobrir que aquela mercearia da esquina vai muito bem, obrigado.

Estou pensando nisso porque passei em frente a um local muito importante na minha infância: a papelaria/bazar Elianita. Era uma loja pequenérrima, bem espremidinha mesmo, mas com tudo o que você conseguia imaginar de papelaria, e até mesmo algumas opções de presente. Foi lá a primeira vez que comprei uma boneca para mim, com o dinheiro que consegui economizar da mesada, entre uma visita e outra na carrocinha de doces que passava na minha rua. Era lá também que íamos com mamãe para comprar a reposição do material escolar em julho (canetinhas e lápis de cor nunca duram o ano todo, né?).

A loja pertencia a um casal de senhores (já eram idosos quando eu era criança, imaginem agora), e o nome da papelaria vinha do nome da filha deles. Lembro que fiquei muito surpresa quando voltei ao Rio para estudar na faculdade e vi que a Papelaria Elianita ainda estava lá, de pé - um pouco castigada, um pouco mais vazia de clientes, mas ainda lá, firme e forte. Só que isso não durou muito: há coisa de dois anos, a Elianita finalmente sucumbiu e o ponto comercial virou uma franquia da Empada Carioca. Vida que segue.

Mas quis o destino que uma loja vagasse bem ao lado da antiga Elianita (agora Empada Carioca) e, como uma ressurreição, eis que abre uma papelaria/bazar no mesmo estilo da antecessora. Não sei se são os mesmos donos (o que duvido, por causa da idade), mas é bom ver surgir esse tipo de comércio que pensei ter morrido para sempre...

quarta-feira, 18 de março de 2009

Meu robô Percival

Um dos baratos de se ter sobrinho é que acabamos voltando um pouco à infância também e resgatando memórias tão empoeiradas que você nem sabe como elas ficaram tanto tempo sem uso no cantinho da sua cabeça.

Hoje fui à casa da minha irmã e meu sobrinho de cinco anos me convidou para ver o seu mais novo desenho preferido, o Meca Animais, que passa no Discovery Kids. Trata-se de um desenho sobre robôs que são animais, e, entre uma cena e outra, meu sobrinho me confidenciou, sussurrando ao meu ouvido: "sabe, tia Laine, eu adoro robô!".

Ri um pouco de toda a confidencialidade para algo tão trivial, e então, na mesma hora, lembrei do meu robô Percival. Era um brinquedo da Estrela que ganhei quando tinha mais ou menos a idade do meu sobrinho, e eu absolutamente o adorava. Ele andava e carregava coisas e, ainda por cima, tinha um jogo do Genius no topo da cabeça. Lindo.

Contei isso a Joãozinho e tive o efeito esperado: seus grandes olhos brilharam e ele quis saber como era o robô. Fomos até o computador e eu busquei no Google Imagens alguma foto que mostrasse a ele como era aquele brinquedo incrível, que eu tanto gostava e que tanto me divertia.

Veio, então, a pergunta fatal: "Mas, tia Laine, onde está o seu robô?"

"Ué, João, joguei fora."

"Mas, por quê?" e o rostinho dele dizia que ele simplesmente não podia acreditar que eu tinha jogado fora algo tão maneiro quanto um robô!

Meio embaraçada, justifiquei que, ora bolas, já fazia mais de 20 anos que eu o havia ganhado, como tê-lo ainda? Ele estava quebrado, escangalhado.

A explicação não pareceu convencê-lo muito sobre a real necessidade de ter me despojado de brinquedo tão sensacional. E querem saber de uma coisa? Não convenceu nem a mim.

Criança sabe mesmo como nos deixar com sensação de culpa!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Carrocinha de doces

Quando eu era criança pequena lá no Rio, eu morava em uma rua sem saída, com pouquíssimo tráfego de automóvel. Mesmo assim, como eu morava em um prédio com playground, nossa mãe só permitia que brincássemos lá. E nós brincávamos de tudo naquele pequeno espaço - o play era pequeno, ao contrário dos plays nos prédios mais novos, que tem parquinho e o diabo a quatro.

O play era no térreo e, então, a gente podia ouvir bem distintamente a buzina da carrocinha de doces passando na nossa rua. Aquilo era o buraco negro da nossa mesada, sem dúvida, porque somos loucos por doce aqui em casa, um bando de formiguinhas.

Eu saía correndo para a rua atrás do moço da carrocinha de doces para comprar Dip'n'lik, Lollo, chocolate Surpresa, Chokito, cigarrinhos de chocolate Pan, drops Pakera, pipoca rosa, chiclete Ploc com figurinha de monstro, Minichiclets da Adams, Bolin Bola* (que foi o chiclete com o qual aprendi a fazer bola, na frente do espelho do armário da mamãe, em um desses dias de compras com o moço da carrocinha). E tinha ainda a laranjinha, um refresco de laranja que as carrocinhas de doce vendiam e que era anilina pura. Minha mãe nunca deixava eu comprar esse refresco na saída da escola, mas quando o moço passava na nossa rua, sem a supervisão dela, eu tomei um desses escondido, só para depois reconhecer que minha mãe tinha razão e que o "suquinho" era uma bela porcaria.

Mas, um dia, o moço da carrocinha de doces sumiu da minha rua - o que foi bom em um ponto, porque pude economizar minha mesada para comprar uma boneca que chorava "mamãe" toda vez que eu a deitava.

Hoje em dia, essas carrocinhas são raridades, nunca mais vi nenhuma. Ouvi dizer uma vez que há uma lei que proíbe carrocinhas de doce a tantos metros da saída das escolas.

Honestamente, tenho pena dessa infância de hoje.

*Update: como pude esquecer de mencionar as deliciosas balas Jujubas e Delicados, que deram origem ao nome deste blog? Ato-falho imperdoável, com certeza.